sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Os pescadores, os peixes e as estrelas.

Em tempos de crise global, mais do que nunca é preciso que haja responsabilidade social. Entretanto, apesar da crise ser do sistema financeiro que faz parte desse "contrato social" que assinamos e nos tornamos sócios no momento em que nascemos, vemos todo o tipo de preocupação financeira e econômica, mas muito pouco daquilo que deveriamos realmente nos preocupar: os rumos da sociedade humana.

A crise atual não é só mais uma das muitas que o capitalismo se utiliza para sobreviver. É uma crise de proporções globais. E não apenas financeira, mas uma crise também ecológica, humanitária e, sobretudo, das estruturas vigentes no "contrato social" que rege o sistema-Terra.

Agora, mas do que em qualquer tempo, é preciso repensar o "contrato social" da humanidade. É preciso que admitamos a sensibilidade como baliza definitiva para um novo sistema social, urgente e necessário.

Estava pesquisando meus arquivos e encontrei um texto que escrevi em 2005, quando trabalhava na Coordenadoria de Responsabilidade Social da CGTEE (Companhia de Geração Térmica de Energia Elétrica) , em Porto Alegre.

Apesar de fazerem 4 anos desde que o escrevi, o texto permanece bastante atual diante da "mal da insensibilidade" que nossa sociedade enfrenta, tal qual doença crônica, desde os primórdios do desenvolvimento humano.

Abaixo, reproduzo o artigo, como uma contribuição à reflexão necessária de toda a humanidade.

----------------------------------------------------------------------------
"Os pescadores, os peixes e as estrelas.
Mirgon Kayser Junior


Os graves problemas sociais da atualidade e os paradigmas da nossa sociedade nos trazem mais perguntas e dúvidas do que respostas e certezas sobre os caminhos que devemos seguir para construir um mundo melhor para todos.

Desde que a responsabilidade social passou a fazer parte da agenda de empresas e entidades como ONGs, a polêmica gira entre “dar o peixe” ou “ensinar a pescar”.

Talvez o que esteja faltando, de fato, seja sensibilidade. Na sua maioria, as empresas fazem uma defesa intransigente e inflexível da tese de que devemos apenas ensinar a pescar e nunca dar o peixe.
Acredito que essa visão tenha sua origem nos vícios e linhas de pensamento que se baseiam na competição e no lucro, em detrimento da cooperação e da humanidade. Aliás, essa divisão em somente duas linhas de ação – ensinar ou doar – tem raízes bem claras no pensamento mercadológico.

Com uma visão mais humanitária, o falecido sociólogo Betinho proferiu a seguinte frase: “Para muitos, dar arroz com feijão é assistencialismo, mas para quem tem fome, é arroz com feijão mesmo”.

Entretanto, se observarmos por outros prismas, encontraremos pelo menos mais uma remificação nessa história: o “apontamento de estrelas”, a doação que não é material e nem de conhecimento, mas de carinho, de compreensão, de amizade.

Cada caso terá que ser enquadrado, individualmente, num desses três ramos da caridade. Muitas vezes, em mais de um dos ramos. Como prescindir de “dar o peixe”, se aqueles a quem estivermos “ensinando a pescar” ainda não estiverem prontos para lançar suas redes, e estiverem passando fome? A miopia social das empresas prestam um enorme desserviço à sociedade com sua insistência em pregar que devemos, apenas “ensinar a pescar”.

Se assim for, como ficam os dependentes químicos; os alcoólatras; meninos e meninas abusadas sexualmente; mulheres violentadas; mulheres e homens cujos filhos nasceram com deficiências físicas e mentais; pessoas vítimas de preconceito pela cor da pele ou opção sexual; os idosos abandonados? Desses, além de muitos outros casos, não demandam alguém que venha lhes ensinar a pescar. Tampouco necessitam peixes. Querem esperança, querem ver estrelas sobre o mar.

Em geral, são pessoas que conhecem a arte de pescar. São pescadores cuja vida lhes apresentou uma tempestade. Não precisam de aulas de pesca ou peixes de graça, mas de pessoas que lhes ajudem a apontar estrelas.

Em que pese a miopia das empresas, devemos trabalhar com a sensibilidade: aulas aos que tem de aprender; peixes aos que estão famintos; estrelas no céu aos que precisam resgatar a esperança para poder voltar ao alto-mar."

1 comentários:

Gêiser Nobio disse...

Olá, Mirgon! Parabéns pelo blog. Sucesso e longevidade é o que eu desejo.

Visite e comece a seguir a página oficial do projeto S.U.P.R.A. Vida Secular! Está feito o convite para conhecer toda a musicalidade do meu modesto sítio.

> www.supravidasecular.blogspot.com

Desde já, agradeço por sua atenção!!!

17 de janeiro de 2009 10:41

Postar um comentário