quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O DIA EM QUE A CORTE NÃO RIU

O Brasil que sustenta com polpuda mesada a Familia Imperial desde a queda do Império e a ascensão da República, é o mesmo Brasil das oligarquias, dos coronéis, dos latifundiários, dos poderosos integrantes da Corte Imperial que adaptaram-se como "elite" à condição republicana. Este é o resumo da "democracia burguesa" instalada no Brasil com a queda do Império. Caía o regime, mas não caiam os poderosos. A então recém-nascida República era construída de forma a manter os mesmos de sempre no poder - e os mesmos de sempre nos porões.

As classes populares, que sempre estiveram subordinadas à burguesia, organizaram-se em torno do PT e da construção dos diversos movimentos sociais e populares que ganharam força na década. A vitória política de Lula em 1989 (embora a derrota eleitoral), serviu para abrir um período de ofensiva burguesa pela "recolocação das coisas em seus lugares", quando vimos o apogeu do neoliberalismo.

O aprofundamento dos problemas sociais, ambientais e econômicos e a decadência que vimos em proporções mundiais na humanidade, acabaram por desgastar esse verdadeiro "mais do mesmo", mais uma receita burguesa para manter a burguesia dominante e o resto nos porões.

Foi nesse cenário, de perda de fôlego da burguesia, que se deu a vitória de Lula em 2002 e vimos, pela primeira vez na história desse país, um operário Presidente da República. A derrota não era palatável, mas com um pouco de paciência, o operário seria deposto rapidamente pelo parlamento, após fazer suas primeiras trapalhadas - Era isso que se passava na cabeça da burguesia, historicamente acostumada a produzir golpes de acordo com suas conveniências.

O desespero veio com o sucesso do governo - e a reeleição de Lula em 2006. O operário não só governara o país por 4 anos, como governaria por mais 4! E o que era ainda pior: Fazia um grande governo. O Governo Lula transformou o Brasil, pôs a casa em ordem, ajudou a moldar um cenário internacional menos "subúrbio de Washington", alavancou 30 milhões de pessoas à classe C, construiu uma nova classe média, distribuiu renda, reduziu a taxa de desemprego à menor da história, fez um Brasil mais próximo ao "Brasil de Todos", marca do governo.

A reação da burguesia com a vitória de sua sucessora, Dilma, foi o retrato do pensamento burguês: "Meus impostos vai continuar indo para esse bando de miseráveis". Vide as reações no Twitter, por exemplo, e toda a polêmica envolvendo as declarações da burguesia paulistana - talvez a mais visceral burguesia brasileira. Outro momento histórico construído, não só pela continuidade do governo Lula, mas pelo fato de o primeiro presidente da República operário e nordestino passar a faixa presidencial à primeira mulher eleita presidenta.

A burguesia humilhada, derrotada pela plebe, pelos que - para muitos - nasceram para servir, precisava de algum alento: -"Pelo menos o palhaço! O palhaço, não!". O palhaço, sim. O palhaço Tiririca, como muitos outros, sempre foi a estrela da televisão - moderno circo, picadeiro onde se apresentam os bobos da corte, os que - como toda a ralé - nasceram para servir ou divertir a burguesia, este era o seu papel. Mas NUNCA, jamais, poderia ser deputado federal. Já pensaram? Um palhaço ocupando um espaço que pertence à corte burguesa, um espaço onde quem deveria mandar é a burguesia, pois define os destinos do Brasil burguês. Os últimos anos levaram representantes do MST, dos movimentos populares, sindicalistas, gente de toda ordem que jamais poderia participar da gloriosa assembléia burguesa. Um palhaço? Aí já era demais...

Afinal de contas, o palhaço é o divisor supremo das águas. O palhaço é o bobo da corte, aquele que frequenta a corte mas não faz parte. Ele não opina, ele não influencia, ele não decide, ele não existe. Ele está ali somente para divertir, fazer a corte rir. Depois de um operário e de uma mulher... Um palhaço?

Tiririca viveu um linchamento moral desde a confirmação de sua eleição. Não faço idéia sobre a qualidade do parlamentar Tiririca. Desconheço totalmente sua capacidade de produzir bons resultados e de defender políticas corretas e adequadas em seu mandato - e não será o preconceito que moverá minha opinião sobre ele. O que eu sei é o que eu vi: A burguesia desesperada, utilizando-se de todos os artifícios para derrotá-lo "no tapetão". Pressão na televisão, pressão nos jornais... Os mesmos que utilizaram seu humor para aumentar seus pontos de audiência, o execraram pela mesma razão.

Tiririca conquistou seu mandato nas urnas - não importa se os votos foram de protesto. O protesto elegeu Tiririca. Tiririca tem 4 anos para mostrar que pode ser um bom parlamentar - ou não. Mas não é o fato de ser um palhaço, ter pouca - ou até nenhuma - escolaridade e ter vindo das classes mais sofridas desse país que deverá tirar o direito conquistado nas urnas de representar o estado de São Paulo no Congresso Nacional.

Hoje Tiririca enfrentou o TRE-SP: Leu e escreveu. Hoje é o dia em que a corte não riu do palhaço.

3 comentários:

Cesar Marin Vargas disse...

Mirgon, nunca ouvi notícias de um palhaço corrupto. Não sei se este cidadão será ou não um grande legislador. Mas de uma coisa eu sei: para exercer a atividade legislativa com eficiência, o mínimo que se exige é o conhecimento da função, o que não é o caso do eleito deputado "vcs sabem o q faz um Deputado Federal? nem eu". Também é imporante saber ler, afinal de contas é nesse poder que se elaboram as leis que ditrão as regras das nossas vidas. Desconhecendo o alfabeto, como o legislador aprovará, ou desabonará tais projetos? Não se trata da burguesia contra o palhaço, afinal de contas, quanto mais palhaços no Congresso Nacional, melhor para as elites que continuarão a aprovar e delimitar os rumos do nosso país. Abraço.

11 de novembro de 2010 17:49
Denise do Amaral disse...

Mirgon ,me tornei fã dos seus artigos, este então me provou isso . Pois embora carioca, acompanhei a campanha e posterior eleição do Tiririca e outros na vida política. Tenho convicção que foi a forma do povo protestar, mas tenho de concordar com vc , que protestando ou não o cidadão foi posto no cargo através de voto popular ... E quem me fez olhar por essa ótica foi o que escreveu ... Não sou uma pessoa de fácil convencimento, mas joguei a toalha .Parabéns !

11 de novembro de 2010 18:38
A Mãe do Autista disse...

Não devemos esquecer que o TIRIRICA é uma "personagem". Pouco se conhece da verdadeira pessoa, o cidadão, que com certeza não é um ignorante pela sua história de vida!
Democracia é isso e espero sinceramente que nos surpreenda caso contrário, cai fora depois!

13 de novembro de 2010 21:36

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